A falta de integração elétrica pode custar à América Latina até US$ 32 bilhões por ano. Além disso, manter os sistemas nacionais praticamente isolados, como hoje, encarece a operação e a expansão da região em até 7% e mais que triplica as emissões do setor elétrico até 2045. E essa conta pode ser ainda mais crítica justamente nos anos de seca, quando a interconexão entre países faria mais diferença.
Os números fazem parte do artigo “Climate urgency enables political alignment for Latin American power integration”, publicado em setembro na revista Nature Communications. O trabalho, que respalda conclusões de inúmeros estudos da PSR sobre integração regional na América Latina, conta com a participação de Luiz Barroso, CEO da PSR e pesquisador associado do Instituto de Tecnológica, Universidad Pontificia Comillas, Madrid, España, que integra o grupo de autores, ao lado de pesquisadores da Universidad de Chile, da Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, da Universidad Adolfo Ibáñez e da Universidad Tecnológica Centroamericana.
O estudo parte de um diagnóstico conhecido: a América Latina tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo (aproximadamente 62% de fontes renováveis) e forte complementaridade entre essas fontes em diferentes países da região, mas a integração elétrica multilateral continua sendo dificultada por fragmentação política.
Os autores propõem uma metodologia para contribuir com uma solução para este impasse, combinando Multiple Streams Approach (modelo de análise de políticas publicas para explicar como certos temas entram na agenda de prioridades do governo) com um modelo de expansão de longo prazo que co-otimiza geração, armazenamento e transmissão transfronteiriça em 21 países, no horizonte 2025–2050, sob alguns cenários hidrológicos. A proposta é traduzir barreiras políticas historicamente tratadas como intangíveis (como desconfiança mútua e preferência por soberania energética) em números comparáveis.
O trabalho também identifica onde estão os incentivos e os receios de cada país. O Brasil aparece como o país que mais perde economicamente ao não se integrar (seguido por Paraguai, Colômbia e Peru), o que o posiciona como potencial articulador do processo. Bolívia e Uruguai, por sua vez, aparecem como os mais expostos ao risco de apostar em um sistema integrado, o que reforça a necessidade de garantias regionais e mecanismos de compartilhamento de risco para viabilizar uma coalizão mais ampla.
A partir dessas evidências, os autores sugerem um “Pacto Energético Latino-Americano” que leve à criação faseada de um Sistema de Integração Elétrica da América Latina (SIEAL), com harmonização de regras técnicas e comerciais para o comércio transfronteiriço, priorização de corredores estratégicos de interconexão, criação de um fundo regional de integração e indicadores de acompanhamento. A proposta parte de acordos já existentes, como os das hidrelétricas de Itaipu, Yaciretá e Salto Grande e o da rede SIEPAC, que interliga os sistemas elétricos de seis países da América Central.
“A viabilidade técnica e econômica da integração elétrica regional já está demonstrada há décadas, com muita participação da PSR em estudos. Este trabalho busca colocar um preço no que sempre tratamos como obstáculo político, para o debate deixar de ser abstrato e ganhar os elementos concretos de que negociadores e formuladores de política precisam”, explica Luiz Barroso.
O artigo está disponível em acesso aberto neste link. E o conjunto completo dos resultados das simulações (incluindo matriz elétrica dos países, fluxos de transmissão, investimentos e custos) pode ser consultado na plataforma interativa desenvolvida pela equipe: https://explorer.energia.la/.